A teoria na prática

uma imagem sobre dancarino de ballet

Cor azul, calça e camiseta. Cabelo é pra ser curto e roupa é pra ser larga. Não pode chorar, tem que andar firme (nada de ficar se mexendo muito), seja educado; mas não muito educado porque não pega bem, chutar tá liberado; desde que seja uma bola ou um colega (de vez em quando acontece). Ser arteiro é permitido. Gostar de arte não é muito aceitável.

Em uma cidade de 60.000 habitantes, no interior de São Paulo, onde 46% da população é masculina, essa descrição de 05 linhas resume o vasto repertório de tudo o que um menino, rapaz ou homem pode fazer. Meu pai nasceu e cresceu nessa cidade e eu também. Meu pai tem orgulho de ter sido arteiro; já eu, às vezes, me envergonho por gostar de artes.

O que você pensa quando ouve alguém falar a palavra BALLET? É uma atividade feminina. É preciso começar desde criança. Outras alternativas parecem ser fora do normal. Essas eram as únicas informações que meu pai tinha a respeito desse assunto, até descobrir que o filho dele faz parte da assustadora estatística do “fora da normalidade”.

Um homem rígido e pouco tolerante as diferenças; um rapaz, tímido e desajeitado, que quer aprender a dançar ballet. A pandemia de um vírus mortal. Pai e filho, são obrigados a conviver 24 horas por dia, confinados na mesma casa. Parece serie da Netflix, mas é vida real.

Nomes de passos em francês, aquecimento, alongamento, salto e pirueta. Observar o próprio filho, com uma roupa estranhamente apertada, apoiando uma das mãos em um cavalete de metal (desses usado para construção), fazendo uma série de tentativas de movimentos com as pernas, braços e cabeça. Uma aula de ballet (mesmo que na versão virtual), esse foi o filme que meu pai assistiu durante os últimos três meses.

Conhecer uma rotina de disciplina, vulnerabilidade, superação e amor. Meu pai continua não gostando de assistir espetáculos de ballet, mas agora a dança virou assunto de rotina aqui em casa, desses que a gente fala sentado à mesa. Então um dia ele me perguntou: “Por que não tem outros rapazes na sua aula?” Eu disse: “Não sei dizer pai, mas acho que quando o assunto é dança, as pessoas devem estar assistindo aos filmes errados”.

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