Quando a animação e a dança se encontram…

Há pouco mais de um ano, assisti a uma ani­ma­ção de um pas de deux no Vimeo que me dei­xou com os olhos cheios d’água e um sor­riso no rosto.

Essa ani­ma­ção se tor­nou bem conhe­cida na inter­net e che­gou a ser ins­pi­ra­ção da nota de aber­tura da novela Amor à Vida, da rede Globo. Para quem ainda não lem­brou ou sacou do que estou falando, este vídeo é o curta Thought Of You do artista Ryan Woodward.

Não tem como não se apai­xo­nar por esta ani­ma­ção 2d de traço sim­ples, como se fosse ainda um ras­cu­nho, movi­men­tado por ges­tos sua­ves de balé e dança con­tem­po­râ­nea. Até a paleta de cores acom­pa­nha o traço do dese­nho e a ani­ma­ção, em cores sua­ves e cruas.

Ryan não espe­rava a grande reper­cus­são que seu dese­nho alcan­çou. O desig­ner sem­pre tra­ba­lhou em pro­du­ções impor­tan­tes da indús­tria da ani­ma­ção, como Walt Diney, Marvel e Dreamworks, mas há 15 anos ela­bora um pro­jeto cha­mado Conte Animated, onde apre­senta ao público sua pre­fe­rên­cia artís­tica à ani­ma­ção tra­di­ci­o­nal atra­vés de pro­ces­sos experimentais.

O pro­jeto visa sem­pre com­bi­nar qua­tro ele­men­tos artís­ti­cos em cada obra:

1. O dese­nho da figura humana a fim de explo­rar grande vari­e­dade de forma, traço e concepção;

2. A ani­ma­ção 2d;

3. A dança contemporânea;

4. O exer­cí­cio de pro­du­ções expe­ri­men­tais como fer­ra­menta de cres­ci­mento artístico.

Em seu site, Ryan explica que, ape­sar de não ser bai­la­rino, apre­cia o talento e a dedi­ca­ção que há em uma peça core­o­grá­fica. Ele diz que a dança é uma forma encan­ta­dora do movi­mento humano que é capaz de comu­ni­car mais emo­ção que qual­quer outra forma de diá­logo (e nós con­cor­da­mos com você, Ryan!).

Ele tam­bém revela que o Thought Of You nas­ceu a par­tir de seu grande desejo em unir suas pai­xões em uma só obra: ilus­tra­ção, ani­ma­ção 2d, EFX Animation e dança con­tem­po­râ­nea, refor­çando as carac­te­rís­ti­cas do pro­jeto para­lelo. Para a ela­bo­ra­ção da ani­ma­ção, Ryan selou par­ce­ria com a coreó­grafa Kori Wakamatsu, que criou a core­o­gra­fia e diri­giu os bai­la­ri­nos e os ensaios. A segunda etapa foi a fil­ma­gem da core­o­gra­fia, matéria-prima para o tra­ba­lho de ilus­tra­ção e ani­ma­ção de Ryan. Há um docu­men­tá­rio sobre o pro­jeto Thought Of You, onde Ryan fala um pouco de sua car­reira, famí­lia, o que desen­ca­deou a ideia da famosa ani­ma­ção e o pro­cesso de montagem/elaboração.

Voltando para os deta­lhes da ani­ma­ção, é pos­sí­vel notar como somente a com­bi­na­ção da core­o­gra­fia e da dança, já nos passa a his­tó­ria de uma casal que sofre pela sepa­ra­ção, atra­vés de pas­sos que os une e que os sepa­ram, além da cons­tante apa­ri­ção e desa­pa­re­ci­mento da garota. Não fica claro como eles se sepa­ra­ram, mas con­se­gui­mos sen­tir a intensa liga­ção que ainda existe entre o casal e a sau­dade que um sente pelo outro.

Elementos como a lua, a água e as penas impri­mem um uni­verso lúdico na trans­mis­são da emo­ção, como a vez em que a garota some por se trans­for­mar em água, sendo impos­sí­vel do rapaz segurá-la, por seu estado líquido, escor­rendo pelos dedos do amado.

Um deta­lhe sutil, mas não menos impor­tante, é a cor do traço do dese­nho da garota, que durante quase todo o vídeo é de cor branca, em con­traste ao do rapaz, de cor preta. A dua­li­dade, branca e preta, pode ser inter­pre­tada como a com­ple­men­ta­ri­e­dade do casal, entre­tanto, ao final da ani­ma­ção, os tra­ços do dese­nho da garota assu­mem a cor preta, em sin­cro­nia ao último movi­mento da dança, em que ele sai de cena e a deixa.

A par­tir dessa cena, então, a cor branca pode ser inter­pre­tada como um ele­mento de repre­sen­ta­ção do campo do sonho, do pen­sa­mento, como ela vivia na mente dele, e que a cor preta repre­senta a rea­li­dade, aquele único momento da dança que retrata algo que real­mente acon­te­ceu. O mais legal desse vídeo, de fato, é a abor­da­gem dos sen­ti­men­tos e da esté­tica de dese­nho cru, que per­mite múl­ti­plas inter­pre­ta­ções. As que escrevi aqui são ape­nas algu­mas pou­cas que são pos­sí­veis de serem extraídas.

Nada mais justo que con­cluir o texto com o vídeo na ínte­gra. Se deli­ciem com essa ani­ma­ção sen­sí­vel e emocionante:

( Por Tainá Corongiu – publicitária, baiana, ex-bailarina e eterna apaixonada pela dança).

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